A inclusão das pessoas LGBTQIA+ no mercado de trabalho, assim como a discussão sobre a pauta na gestão das empresas, é um caminho para o sucesso nos negócios. A análise é de Reinaldo Bulgarelli, secretário-executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+. O fórum estabelece os “10 compromissos da empresa com a promoção dos direitos LGBTI+”, conjunto de diretrizes que guiam as práticas das organizações em temas como respeito, igualdade de oportunidades, desenvolvimento profissional e inclusão na cadeia de valor.
Em entrevista exclusiva para o site da Rede, o especialista falou sobre a importância de mapear a diversidade nas empresas e do papel do mercado financeiro em contribuir com a inclusão de pessoas LGBTQIA+.
Confira o bate-papo na íntegra:
ANBIMA: Quais foram as principais conquistas em relação aos direitos LGBTQIA+ nas empresas? E quais barreiras precisam ser superadas, especialmente no setor financeiro?
Reinaldo Bulgarelli: O principal avanço foi trazer o tema da diversidade para a agenda das companhias. Um marco foi o reconhecimento dos direitos de casais do mesmo gênero, como ocorreu no início dos anos 2000, com empresas pioneiras no mercado financeiro oferecendo benefícios como plano de saúde para esses casais. A visibilidade de pessoas trans também ganhou força, embora enfrentasse resistência.
O Fórum de Empresas e Direitos LGBTQIA+ foi crucial para estabelecer compromissos em várias áreas. No setor financeiro, que já foi pioneiro no passado, houve uma perda de visibilidade, e o desafio agora é retomar essa liderança e reafirmar que a diversidade impulsiona inovação e sucesso.
ANBIMA: Muitas vezes as pessoas questionam a necessidade de falar sobre orientação sexual no trabalho. Como você avalia essa questão?
Bulgarelli: Levantar a bandeira da orientação sexual no ambiente de trabalho não é sobre vida pessoal ou sexo, mas sobre garantir cidadania e inclusão. Sem essa visibilidade, os direitos e oportunidades de pessoas LGBTQIA+ podem ser ignorados nas políticas da empresa. O objetivo não é criar divisões, mas assegurar igualdade de oportunidades, fortalecendo a cultura organizacional e alinhando-a às responsabilidades sociais da empresa. Diversidade traz inovação e fortalece o ambiente corporativo.
ANBIMA: Por que a naturalização da heterossexualidade pode ser vista como uma exclusão implícita? Como lidar com isso no mercado de trabalho?
Bulgarelli: A heterossexualidade é frequentemente reafirmada de forma automática e invisível, criando um padrão dominante. Quando pessoas LGBTQIA+ mencionam seus parceiros, isso muitas vezes é visto como “afirmação” de algo fora do padrão. No ambiente de trabalho, a falta de visibilidade para outras orientações pode ser uma forma de exclusão. O papel das lideranças é educar e promover um ambiente inclusivo, onde todas as identidades possam ser reconhecidas e respeitadas, enriquecendo o ambiente e as interações entre as pessoas.
ANBIMA: Por que é importante mapear profissionais LGBTQIA+ no mundo corporativo?
Bulgarelli: O mapeamento é crucial para a gestão de inclusão porque possibilita identificar a presença de profissionais LGBTQIA+ e trabalhar estratégias para melhorar o ambiente e a cultura organizacional, garantindo que todos e todas se sintam respeitados e incluídos.
A confiança do colaborador em compartilhar sua identidade também é uma questão sensível, especialmente quando se trata de dados como orientação sexual e identidade de gênero. É importante garantir que as informações sejam tratadas com responsabilidade e que a pessoa tenha a opção de não tornar esses dados públicos. É essencial que as empresas não traiam a confiança das pessoas que decidem se abrir. Mais do que aceitar, é preciso apoiar e valorizar essa diversidade, com uma gestão contínua que realize censos periódicos e acompanhe a evolução desses dados ao longo do tempo.
Além disso, esse processo ajuda a empresa a se posicionar de maneira mais estratégica e responsável, criando políticas que respeitem a diversidade e contribuam para um ambiente de trabalho inclusivo e igualitário.
ANBIMA: Qual a importância de o mercado financeiro ter uma abordagem focada na inclusão e no desenvolvimento de pessoas LGBTQIA+?
Bulgarelli: As pessoas LGBTQIA+ estão presentes no sistema financeiro, ainda que muitas não tenham visibilidade marcante. Ao incentivar que elas se sintam à vontade para expressar quem são, tanto dentro da empresa quanto para os clientes, enriquecemos as relações e promovemos a liberdade individual.
Incluir mais pessoas LGBTQIA+ e trazer o tema para a agenda de gestão não é apenas uma questão ética, mas também um caminho para o sucesso nos negócios. O respeito à dignidade humana deve estar no centro da operação de uma empresa. A inclusão de todas as pessoas, independentemente da orientação sexual ou identidade de gênero, reflete uma empresa que escolhe ganhar dinheiro de forma ética. E essa escolha é crucial para definir o futuro dos negócios.
O mercado financeiro tem um poder especial para acelerar essas mudanças, como já vimos no passado, quando algumas organizações deram grandes passos para incluir e dar visibilidade a questões de diversidade. Embora em alguns momentos tenha havido recuo por causa de críticas, hoje há oportunidade de retomar e avançar, utilizando essa força para influenciar positivamente a sociedade e criar um ambiente de negócios mais justo e inclusivo.